O acordo ortográfico
Como os filólogos da República da Guiné-Bissau não puderam estar
presentes na recente reunião para o Novo Acordo Ortográfico, estamos
todos à espera da sua ratificação para saber como é que nós, os
Portugueses, vamos escrever 'a nossa própria língua. E esta? De qualquer
modo, os grandes peritos de São Tomé e Princípe, de Angola, do Brasil, e
dos outros países de «expressão oficial portuguesa» já se pronuciaram. A
República da Guiné-Bissau, porém, também terá a sua palavra a dizer.
Muito provavelmente, uma palavra escrita à maneira deles; mas não faz
mal. Nas palavras de Fernando Cristovão, 1986 é o ano que marca a
nascença da lusofonia. A grandiosa lusofonia está, obviamente, acima da
mera língua portuguesa.
A lusofonia é uma espécie de estereofonia, só que é melhor. A
estereofonia funciona com dois altifalantes, enquanto a a lusofonia
funciona com mais de 100 milhões.” Para mais, os falantes da lusofonia
têm a vantagem de ser feitos em África e na América do Sul, o que lhes
confere uma sonoridade nova e exótica. Para instalar uma aparelhagem
lusofónica devidamente apetrechada, são necessários complicados
componentes tupis, quimhmoguenses, umbandinos e macuas, Enfim, coisas
que não se fabricam na nossa terra. A partir de 1986, todos os povos a
quem uma vez chegou a língua portuguesa podem contar com um lusofone em
casa. Um lusofone é um aparelho que permite a qualquer indígena falar e
escrever perfeitamente esta nova e
excitante língua, que passará a chamar-se o brutoguês.
Para haver lusofonia, nada pode ser como dantes. Os Lusíadas passarão a
conhecer-se por Os Lusofoníadas. Se dantes havia língua portuguesa e a
sua particular ortográfica, agora passa a haver a língua brotuguesa e a
sua ainda mais particular tortografia. A tortografia, conforme se
estabeleceu no Acordo Lusofónico de 1986, consiste em escrever tudo
torto.
As bases da tortografia assentam numa visão bruta da fonética. Por
outras palavras, se a lusofonia é uma cacofonia de expressão oficial
brutoguesa, a tortografia consiste fundamentalmente no conceito de
cacografia”. Dantes cada país exercia o direito inalienável de escrever
a língua portuguesa como queria. As variações ortográficas tinham graça
e ajudavam a estabelecer a identidade cultural de cada país. Agora, com
o Acordo Tortográfico, a diferença está em serem os Portugueses a
escreverem como todos os outros países querem. Como todos os países
passam a escrever como todos querem, nenhum país pode escrever como ele,
sozinho, quer.
As ortografias tupis e crioulas, macumbenses e fanchôlas passarão a
escrever-se direito por linhas tortas. O Prontuário passa a escrever-se
«Prontuario», rimando com «desvario» e «Cuf-Rio». O Abecedário passa a
escrever-se «Abecedario», em homenagem a dario, grande Imperador da
Pérsia, que, por sua vez, se vai escrever «Persia» para rimar com
«aprecia», já que qualquer persa aprecia uma homenagem, mesmo que seja
só uma simples omenagem. Já dizia acentuadamente Fernando Pessoa que «a
minha pátria é a língua portuguesa». Agora passa a dizer «a minha patria
é a lingua portuguesa», em que «patria» deixa de ser anomalia e
«lingua» assim, nua e crua.
Será possível imaginar os ilustres filólogos de Cabo Verde a discutir
minúcias de etimologia grega com os seus congéneres de Moçambique?
Imagine-se o seguinte texto, em que as palavras sublinhadas serão
obrigatoriamente (para não falar nas grafias facultativas) escritas
pelos portugueses, caso o acordo seja aprovado:”A adoção exata deste
acordo agora batizado é um ato otimo de coonestação afrolusobrasileira,
com a ajuda entristorica dos diretores linguisticos sãotomenses e
espiritossantenses. Alguns atores e contraalmirantes malumorados, que
não sabem distinguir uma reta de uma semirrecta, dizem que as bases
adotadas são antiistoricas, contraarmonicas e ultraumanas, ou, pelo
menos, extraumanas. No entanto, qualquer superomem aceita sem magoa que o
nosso espirito hiperumano, parelenico e interelenico é de grande
retidão e traduz uma arquiirmandade antiimperialista. Se a eliminação
dos acentos parece arquiiperbolica e ultraoceanica, ameaçando a prosodia
da poesia portuguesa e dificultando a aprendizagem da lingua, valha-nos
santo Antonio, mas sem mais maiúscula. A escrever »O mano, que é
contraalmirante, não se sabe mais nada, mas não é sobreumano«? O que é
que deu nos gramáticos de além-mar (ou escrever-se-á alemar)? A
tortografia será uma doença tropical assim tão contagiosa?”
Os portugueses no fundo assinaram um Pacto ortográfico que sabe a
pato. Ninguém imagina os espanhóis, os Franceses, ou os Ingleses a
lançarem-se em acordos tortográficos, a torto e a direito, como os
Portugueses. Cada país – Seja Timor, seja o Brasil, seja Portugal – tem o
direito e o dever de deixar desenvolver um idioma próprio, Portugal já
tem uma língua e uma ortografia próprias. Há já bastante tempo. O
Brasil, por sua vez, tem conseguido criar um idioma de base portuguesa
que é riquíssimo e que se acrescenta ao nosso. Os países africanos que
foram colónias nossas avançam pelo mesmo caminho. Tentar «uniformizar» a
ortografia, em culturas tão diversas, por decretos aleatórios que ousam
passar por cima de misteriosos mecanismos da língua, traduz um
insuportável colonialismo às avessas, um imperialismo envergonhado e
bajulador que não dignifica nenhuma das várias pátrias envolvidas. É uma
subtracção totalitária.
A ortografia brasileira tem a sua razão de ser, e a sua identidade.
Quando lemos um livro brasileiro, desde um «Pato Donald» ao Guimarães
Rosa, essas variações são perfeitamente compreensíveis. Até achamos
graça. Como os Brasileiros acham graça à nossa. Tentar «uniformizar»
artificialmente a ortografia, para além das bases mínimas da Convenção
de 1945, é da mesma ordem da estupidez que pretender que todos os que
falam português falem com a pronúncia de Celorico ou de Salvador da
Bahia. é ridículo, é anticultural, é humilhante para todos nós. Se não
tivessem já gozado, era caso para mandá-los gozar com o Camões.
Imaginem-se os biliões de cruzeiros, escudos, meticais, patacas e
outras moedas que vai custar a revisão ortográfica de todos os livros já
existentes. Imagine-se o distanciamento escusado que se vai causar
junto das gerações futuras, quando tentarem ler escorreitamente os
livros do nosso tempo. Sobretudo, imagine-se a desautorização e a
relativização que o acordo implica. Amanhã, uma criança há-de escrever
esperanssa e quando for chamada a atenção, dirá «tanto faz, que estão
sempre a mudar, e qualquer dia desaparecem as cês cedilhados». Ou
responderá, muito simplesmente: «Pai, mas é assim que se escreve em Cabo
Verde!»
“A língua portuguesa nasceu do latim – toda a gente sabe. Um dia, a
língua brasileira, e a língua são-tomense, e a língua angolana serão
também línguas novas e fresquinhas que nasceram da língua portuguesa.
Ninguém há-de respeitar menos a língua por causa disso. (Nós também não
desrepeitamos o latim.) As línguas são indissociáveis das culturas e das
histórias nacionais, e elas são diferentes em todos os países que hoje
falam português à maneira deles. A maneira é a maneira deles, e a nossa
é a nossa. A única diferença é que Portugal já há muito que achou a sua
própria maneira, tanto mais que a pôde ensinar a outros povos, e é um
ultraje e um desrespeito pretender que passemos a escrever como os
Moçambicanos ou como os brasileiros. Eles são países novinhos. Nós somos
velhinhos, e não faz sentido ensinar os velhinhos a dizer gugudadá, só
para que possam «falar a mesma língua» que as criancinhas.
Sem império, Portugal tem ainda a dignidade de ter sido Império. Mas
há um feitio mesquinho que se encontra em muitos portuguesinhos de
meia-tijela, que consiste em ter medinho que as ex-colónias se esqueçam
de nós. Estes acordos absurdos são sempre «ideia» dos Portugueses
armados em donos da língua. A verdadeira dignidade não é essa – é soltar
a língua portuguesa pelo mundo fora, já que a sua flexibilidade é uma
das suas maiores riquezas. Aquilo que já aconteceu – haver um português
brasileiro, um português angolano, um português indiano – é prova
gloriosa disso. Mas quando os Portugueses desejam meter-se na vida
linguística dos outros, é natural que os outros também se metam na
nossa. Os próprios participantes deste último Acordo parecem ter perdido
completamente a cabeça, aceitando normas ortográficas disparatadas para
a língua portuguesa de Portugal. Sem ingerências da nossa parte, seriam
inaceitáveis as ingerências dos outros. O Acordo agora proposto – que o
Governo deveria ler muito cuidadosamente, antes de consigná-lo, entre
saudáveis gargalhadas, ao caixote do lixo da história – é uma mistura
diabólica e patética de extremo relaxamento ortográfico («tudo vale,
seja na Guiné, seja em Loulé) e de inadmissível sobranceria cultural
(«tudo vale, mas nós é que temos o aval»). Faz lembrar aqueles miúdos
que dizem «Eu faço o que vocês disserem, desde que eu possa ser o
chefe»).
Dizem que é «mais conveniente». Mais conveniente ainda era falarmos
todos inglês, que dá muito mais jeito. Ou esperanto. Dizem que a
informática não tem acentos. É mentira. Basta um esforçozinho de nada,
como já provaram os Franceses e já vão provando alguns programadores
portugueses. Dizem que é mais racional. Mas não é racional andar a
brincar com coisas sérias. A nossa língua e a nossa ortografia são das
poucas coisas sérias que Portugal ainda tem. É irracional querer
misturar política da língua com a língua da política.
O que vale é que, neste momento, muitos portugueses – escritores,
jornalistas e outros utentes da nossa língua – estão a organizar-se para
combater a inestética monstruosidade. Que graça tinha se se fizesse um
Acordo Ortográfico e nenhum português, brasileiro ou cabo-verdiano o
obedecesse. Isso sim, seria um acordo inteligente. Concordar em
discordar é a verdadeira prova de civilização”.
«O Acordo Tortográfico» [Miguel Esteves Cardoso]
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Comida japonesa
História do meu primo Joel
Naquele tempo eu tinha uma namorada de Três Rios, e raramente ela vinha para Niterói me visitar, já que cada vinda dela era uma coisaplanejada
cuidadosamente, com capricho de visita de chefe de estado, uma vez que
havia toda uma logística de vigilância para que eu não comesse a garota
(que todo mundo pensava ser virgem, sobretudo na família dela).Então,
era uma coisa rara e quando ela vinha aqui nosso passeio mais comum era
ir ao shopping. Não sei porque cargas d´água a infeliz dava um azar do
cacete e sempre que ela vinha crente que iria à praia, chovia horrores.
Então o que restava era o shopping.
Um dia eu estava vendo tevê quando numa novela ou seriado, percebi
que um cara muito charmoso, o galã ou o antagonista
boa-pinta-malvado-feito-o-cão, levou sua vítima sexual para comer comida
japonesa. E aquilo ali fez todo sentido para mim.
Eu pensei cá com meus botões: – Que legal, o sujeito leva a moça para um restaurante exótico, mete saquê nela e depois vai pro motel e finaliza o serviço…
Naquele tempo, só tinha dois restaurantes especializados em gastronomia oriental em Niterói. A comida japonesa ainda não era essa febre que é hoje. E é por isso que a idéia de comer comida japonesa me pareceu tão sensacional. Quando ela chegou, eu resolvi impressionar a garota. Juntei todos os caraminguás que eu tinha. Não era muito, uma vez que eu não trabalhava e vivia de mesada, e ainda por cima era fim do mês. Ela queria ir no clássico Mc Donald´s (que também não tem em Três Rios) mas eu falei pra ela:
- J*, hoje eu vou te levar num lugar super legal. Vamos comer comida japonesa.
-É mesmo? Nossa, que legal! Eu nunca comi.- Disse ela com uma expressão de surpresa. – Eu quase falei que eu também nunca tinha comido aquilo, mas sabe como é o cara querendo impressionar, né?
-Ah, você vai se amarrar. Tem que comer de pauzinho, você vai ver… -Bancando o profundo conhecedor de comida japonesa.
-Nossa. será que eu vou saber?
-Claro. É facílimo. Eu te ensino. – Ele, o maioral, o foda, o senhor Tokio em pessoa, ehehehe.
Nos arrumamos. Coloquei a minha roupa bonita de fazer exame de fezes e ela se enfiou naqueles micro-vestidos provocantes que só me arrumavam problemas na rua. Fomos direto pro restaurante.
Chegando lá, ela embasbacada com um restaurante todo decorado como construção japonesa. Eu estava embasbacado também, mas querendo bancar o sujeito cosmopolita, cidadão do mundo, o fodão que conhece todo tipo de comida, tentei fazer um ar blasé como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Entramos, e havia uma série de mesinhas baixinhas. Novamente o espanto. Novamente meu ar blasé.
O garçom trouxe o cardápio. Quando eu bati o olho, puta que pariiiiu! Era caro para caceta!
-O que foi? – Perguntou ela vendo meu ligeiro desconforto (na verdade, quase um ataque epiléptico).
-Nada, nada. É que… Bem, eles mudaram o menu… – Disse eu olhando para o menu em busca dos preços. Enquanto isso, meu co-processador aritmético, fazia um milhão de contas tentando determinar o que é naquela maldita carta que daria para comer com os parcos tostões que eu tinha.
Depois de muito olhar, eu notei que não havia nenhuma desgraça de descrição do que era cada prato daqueles. Só havia os nomes em japonês. Eu fiquei puto. Era muita monguice fazer um menu de restaurante todo em japonês sabendo que a probabilidade de um japonês alfabetizado entrar lá era infinitamente pequena.
-Você está bem? – Perguntou a J* pra mim ainda intrigada com minha cara. Eu pensei em falar a verdade e assumir que eu era um pela-saco tão do mato quanto ela e que aquilo ali era minha primeira vez também, mas ela parecia tão feliz de estar na cidade grande, num lugar tão sofisticado que eu fiquei com vergonha de bancar o otário. Eu odeio fazer papel de otário, mas quando eu faço, vou até as últimas consequências.
-Estou. Estou ótimo. Você quer escolher? – Disse eu, entregando pra ela o cardápio.
Pronto, estava feito o suicídio social e amoroso na minha vida. Eu não só não havia falado a verdade como não tinha cheque nem cartão de crédito. O dinheiro era contadinho, e eu havia deixado a garota escolher o que pedir.
Enquanto ela olhava em silêncio o cardápio eu pensava na merda que ia ser na hora de sair. Como dizer que não teria dinheiro para pagar? Como pagar o mico de ligar para o meu pai e pedir para ele ir lá pagar a conta? A merda começava a se avolumar cada vez mais e eu devia estar com uma cara de muito pavor porque notei que os caras da mesa ao lado começavam a olhar pra mim.
-Mas está tudo em japonês… – Disse ela. Eu respirei aliviado. A monguice suprema do restaurante havia me salvado.
Qualquer cidadão mínimamente normal iria chamar o garçom e pedir uma sugestão, mas na situação periclitantemente dura que meu bolso estava, eu não daria mais esta chance ao azar. Levantar e sair estava fora de cogitação, uma vez que ela iria passar a maior vergonha e eu mais ainda.
Eu peguei o menu de volta. O menu era cheio de belas fotos e olhei cuidadosamente cada uma das fotos. Foi quando lá no iníciozinho, eu vi uma linda foto de uma cumbuca LOTADA de camarão.
Ao lado haviam uns três troços indecifráveis escritos em japonês.
Dois desses troços eram caríssimos. Um deles era barato. Quer dizer, era caro, mas era o que eu podia pagar. Torci para que o barato fosse a cumbuca de camarões.
Então eu chamei o garçom e apontei para o nome da coisa que eu podia pagar. Pedi aquilo.
O garçom:
-Quantos? – Eu não estava preparado para aquilo. Eu queria ouvir apenas um “sim senhor”. Mas “quantos” realmente me sacaneou.
-Hã?
-Quantos o senhor deseja?
-Errr… Bem, eu não estou com muita fome… (menti. Eu tava com uma forme desgraçada) J* você tá com muita fome? – Perguntei a ela. E como era de bom tom, graças à Deus, a mínima educação a infeliz tinha. Aí ela disse:
-Não… Não muita.
Satisfeito, eu virei para o garçom e disse: Traz um só pra dividirmos. E uma coca. também pra dividir. O garçom acenou com a cabeça e fez uma cara MUITO estranha. Virou-se e saiu.
A cara do garçom ficou na minha cabeça me preocupando por alguns minutos, mas o ambiente era tão legal, tão bem decorado, que eu relaxei e acabei esquecendo dela. Além disso, meu otimismo crônico me tranqüilizava com a idéia de que talvez o garçom tivesse feito aquela cara porque ele queria ganhar 10% em cima de dois cumbucões de camarão.
Dali a pouco veio o garçom trazendo uma coisa estranha. Um guardanapo em forma de leque quente pra caramba.
J* estava em êxtase, eu secretamente havia acertado seu eterno desejo de comer comida japonesa, desde que vira aquilo num filme.
E então depois de um papo de amenidades, veio o garçom trazendo a bandeja. Como nós estávamos sentados na mesa baixinha, não dava pra ver o que havia na bandeja até que ele se abaixou e colocou dramáticamente no meio da mesa.
…
Ali estava um bolinho. Uma porra minúscula dum bolinho de arroz.


O garçom mandou o clássico:
-Bom apetite. – E saiu. Eu pude ver através da nuca do filho da puta do garçom um sorriso cínico. Meu olhar passeou em câmera lenta por todo o restaurante, desviando-se agilmente dos olhares estupefatos de J* para o bolinho. Eu só parei de olhar em volta quando vi que os caras da mesa ao lado estavam quase fazendo xixi na calça de tanto rir da minha situação escrota.
Então eu tomei coragem e olhei para J*. E em seguida olhei para o bolinho.
-É só isso? – Perguntou ela.
-Acho que é.
-Acha?
-Não, quer dizer. É… Com certeza, é. Sabe como são os japoneses, todos magrinhos…
-Eu não vou comer isso. – Falou ela olhando com nojo para o bolinho que aguardava no meio da mesa.
Pela minha visão periférica eu vi o garçom chegando e por um momento eu pensei que aquilo era um couvert. Eu já ia respirar aliviado quando vi que o garçom colocou uma cumbquinha com umas coisinhas na mesa. Era tipo duma maionese verde e outra com um caldo preto que parecia óleo queimado.

J* olhou pra mim: – Que isso?
Eu apontei com o pauzinho:
-Isso?

-É.
-Isso, bem… Sabe como é. Isso é uma… Uma maionese. Uma maionese de alface. Por isso que é verde. Quer?
-Não. Cruz credo. Come você.
- E isso aqui? – Perguntou ela apontando para o shoyo.
-Isso aqui é… O óleo que fritou o baiacú. – Disse eu sabendo que desta frase ela só entendeu a parte do “óleo que fritou”.
-Não vai querer o bolinho?
-Acho que perdi a fome. Além disso, parece que tem uma fita isolante em volta dele. – Ela riu.
Eu fiz o meu clássico ar blasé, como quem diz: “Não sabe nada da vida, né minha filha?”
Então eu peguei o bolinho de arroz enrolado numa fita isolante com uma coisa morta em cima, que visívelmente não ia matar nem 1% da minha fome. Como era pouca comida, peguei TODA a “maionese de alface” E caprichei uma escultura em cima do bolinho.
Olhei para o lado, para a mesa dos três caras e todos eles estavam estupefatos olhando pra mim com os olhos mais arregalados que eu já vi.
Não deu tempo de fazer a conexão. Eu enfiei aquela merda na boca.
Era wasabi.
—–Pausa em luto do meu intestino ——-
Continuando, o tal wasabi que eu pensava que era maionese de alface, era a coisa mais sinistramente picante que eu coloquei na minha boca em toda minha vida.
Eu olhei para J* e a vi terminando de beber o último copo de coca-cola que estávamos dividindo.
-Que foi? – Indagou ela.
Eu não conseguia falar. As lágrimas começaram a escorrer pelo canto dos meus olhos e eu só não vomitei ali mesmo porque eu daria um gostinho para os quatro filhos de uma égua da mesa ao lado. Todas aquelas quatro hienas rindo de mim, esperando que eu gritasse, levantasse correndo pro banheiro ou desse um jato de vômito verde-limão na cara de J* no melhor estilo Exorcista.
Eu comecei a sentir minha glote fechar. Eu achei que ia morrer.
Então, eu reuni toda força universo, toda energia dos antepassados, do cosmos, a força de Gaia, mais a energia vital do meu corpo, mentalizei o kundalini e engoli aquela merda.
J* apenas olhava minha cara vermelha, e as lágrimas correndo pelo canto dos olhos.
-Tá quente? Tá ardendo? Tá com pimenta? – Ela perguntava assustada.
Eu só conseguia mexer a cabeça positivamente. Meti a mão no bolso peguei o dinheiro e joguei sobre a mesa. Levantei peguei J* pela mão e saí puxando ela pra fora do restaurante.
A noite terminou no Mc Donald´s, onde deveria ter começado.
Depois disso, eu fiquei anos sem comer comida japonesa.
FIM
Eu pensei cá com meus botões: – Que legal, o sujeito leva a moça para um restaurante exótico, mete saquê nela e depois vai pro motel e finaliza o serviço…
Naquele tempo, só tinha dois restaurantes especializados em gastronomia oriental em Niterói. A comida japonesa ainda não era essa febre que é hoje. E é por isso que a idéia de comer comida japonesa me pareceu tão sensacional. Quando ela chegou, eu resolvi impressionar a garota. Juntei todos os caraminguás que eu tinha. Não era muito, uma vez que eu não trabalhava e vivia de mesada, e ainda por cima era fim do mês. Ela queria ir no clássico Mc Donald´s (que também não tem em Três Rios) mas eu falei pra ela:
- J*, hoje eu vou te levar num lugar super legal. Vamos comer comida japonesa.
-É mesmo? Nossa, que legal! Eu nunca comi.- Disse ela com uma expressão de surpresa. – Eu quase falei que eu também nunca tinha comido aquilo, mas sabe como é o cara querendo impressionar, né?
-Ah, você vai se amarrar. Tem que comer de pauzinho, você vai ver… -Bancando o profundo conhecedor de comida japonesa.
-Nossa. será que eu vou saber?
-Claro. É facílimo. Eu te ensino. – Ele, o maioral, o foda, o senhor Tokio em pessoa, ehehehe.
Nos arrumamos. Coloquei a minha roupa bonita de fazer exame de fezes e ela se enfiou naqueles micro-vestidos provocantes que só me arrumavam problemas na rua. Fomos direto pro restaurante.
Chegando lá, ela embasbacada com um restaurante todo decorado como construção japonesa. Eu estava embasbacado também, mas querendo bancar o sujeito cosmopolita, cidadão do mundo, o fodão que conhece todo tipo de comida, tentei fazer um ar blasé como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Entramos, e havia uma série de mesinhas baixinhas. Novamente o espanto. Novamente meu ar blasé.
O garçom trouxe o cardápio. Quando eu bati o olho, puta que pariiiiu! Era caro para caceta!
-O que foi? – Perguntou ela vendo meu ligeiro desconforto (na verdade, quase um ataque epiléptico).
-Nada, nada. É que… Bem, eles mudaram o menu… – Disse eu olhando para o menu em busca dos preços. Enquanto isso, meu co-processador aritmético, fazia um milhão de contas tentando determinar o que é naquela maldita carta que daria para comer com os parcos tostões que eu tinha.
Depois de muito olhar, eu notei que não havia nenhuma desgraça de descrição do que era cada prato daqueles. Só havia os nomes em japonês. Eu fiquei puto. Era muita monguice fazer um menu de restaurante todo em japonês sabendo que a probabilidade de um japonês alfabetizado entrar lá era infinitamente pequena.
-Você está bem? – Perguntou a J* pra mim ainda intrigada com minha cara. Eu pensei em falar a verdade e assumir que eu era um pela-saco tão do mato quanto ela e que aquilo ali era minha primeira vez também, mas ela parecia tão feliz de estar na cidade grande, num lugar tão sofisticado que eu fiquei com vergonha de bancar o otário. Eu odeio fazer papel de otário, mas quando eu faço, vou até as últimas consequências.
-Estou. Estou ótimo. Você quer escolher? – Disse eu, entregando pra ela o cardápio.
Pronto, estava feito o suicídio social e amoroso na minha vida. Eu não só não havia falado a verdade como não tinha cheque nem cartão de crédito. O dinheiro era contadinho, e eu havia deixado a garota escolher o que pedir.
Enquanto ela olhava em silêncio o cardápio eu pensava na merda que ia ser na hora de sair. Como dizer que não teria dinheiro para pagar? Como pagar o mico de ligar para o meu pai e pedir para ele ir lá pagar a conta? A merda começava a se avolumar cada vez mais e eu devia estar com uma cara de muito pavor porque notei que os caras da mesa ao lado começavam a olhar pra mim.
-Mas está tudo em japonês… – Disse ela. Eu respirei aliviado. A monguice suprema do restaurante havia me salvado.
Qualquer cidadão mínimamente normal iria chamar o garçom e pedir uma sugestão, mas na situação periclitantemente dura que meu bolso estava, eu não daria mais esta chance ao azar. Levantar e sair estava fora de cogitação, uma vez que ela iria passar a maior vergonha e eu mais ainda.
Eu peguei o menu de volta. O menu era cheio de belas fotos e olhei cuidadosamente cada uma das fotos. Foi quando lá no iníciozinho, eu vi uma linda foto de uma cumbuca LOTADA de camarão.
Ao lado haviam uns três troços indecifráveis escritos em japonês.
Dois desses troços eram caríssimos. Um deles era barato. Quer dizer, era caro, mas era o que eu podia pagar. Torci para que o barato fosse a cumbuca de camarões.
Então eu chamei o garçom e apontei para o nome da coisa que eu podia pagar. Pedi aquilo.
O garçom:
-Quantos? – Eu não estava preparado para aquilo. Eu queria ouvir apenas um “sim senhor”. Mas “quantos” realmente me sacaneou.
-Hã?
-Quantos o senhor deseja?
-Errr… Bem, eu não estou com muita fome… (menti. Eu tava com uma forme desgraçada) J* você tá com muita fome? – Perguntei a ela. E como era de bom tom, graças à Deus, a mínima educação a infeliz tinha. Aí ela disse:
-Não… Não muita.
Satisfeito, eu virei para o garçom e disse: Traz um só pra dividirmos. E uma coca. também pra dividir. O garçom acenou com a cabeça e fez uma cara MUITO estranha. Virou-se e saiu.
A cara do garçom ficou na minha cabeça me preocupando por alguns minutos, mas o ambiente era tão legal, tão bem decorado, que eu relaxei e acabei esquecendo dela. Além disso, meu otimismo crônico me tranqüilizava com a idéia de que talvez o garçom tivesse feito aquela cara porque ele queria ganhar 10% em cima de dois cumbucões de camarão.
Dali a pouco veio o garçom trazendo uma coisa estranha. Um guardanapo em forma de leque quente pra caramba.
J* estava em êxtase, eu secretamente havia acertado seu eterno desejo de comer comida japonesa, desde que vira aquilo num filme.
E então depois de um papo de amenidades, veio o garçom trazendo a bandeja. Como nós estávamos sentados na mesa baixinha, não dava pra ver o que havia na bandeja até que ele se abaixou e colocou dramáticamente no meio da mesa.
…
Ali estava um bolinho. Uma porra minúscula dum bolinho de arroz.
O garçom mandou o clássico:
-Bom apetite. – E saiu. Eu pude ver através da nuca do filho da puta do garçom um sorriso cínico. Meu olhar passeou em câmera lenta por todo o restaurante, desviando-se agilmente dos olhares estupefatos de J* para o bolinho. Eu só parei de olhar em volta quando vi que os caras da mesa ao lado estavam quase fazendo xixi na calça de tanto rir da minha situação escrota.
Então eu tomei coragem e olhei para J*. E em seguida olhei para o bolinho.
-É só isso? – Perguntou ela.
-Acho que é.
-Acha?
-Não, quer dizer. É… Com certeza, é. Sabe como são os japoneses, todos magrinhos…
-Eu não vou comer isso. – Falou ela olhando com nojo para o bolinho que aguardava no meio da mesa.
Pela minha visão periférica eu vi o garçom chegando e por um momento eu pensei que aquilo era um couvert. Eu já ia respirar aliviado quando vi que o garçom colocou uma cumbquinha com umas coisinhas na mesa. Era tipo duma maionese verde e outra com um caldo preto que parecia óleo queimado.
J* olhou pra mim: – Que isso?
Eu apontei com o pauzinho:
-Isso?
-É.
-Isso, bem… Sabe como é. Isso é uma… Uma maionese. Uma maionese de alface. Por isso que é verde. Quer?
-Não. Cruz credo. Come você.
- E isso aqui? – Perguntou ela apontando para o shoyo.
-Isso aqui é… O óleo que fritou o baiacú. – Disse eu sabendo que desta frase ela só entendeu a parte do “óleo que fritou”.
-Não vai querer o bolinho?
-Acho que perdi a fome. Além disso, parece que tem uma fita isolante em volta dele. – Ela riu.
Eu fiz o meu clássico ar blasé, como quem diz: “Não sabe nada da vida, né minha filha?”
Então eu peguei o bolinho de arroz enrolado numa fita isolante com uma coisa morta em cima, que visívelmente não ia matar nem 1% da minha fome. Como era pouca comida, peguei TODA a “maionese de alface” E caprichei uma escultura em cima do bolinho.
Olhei para o lado, para a mesa dos três caras e todos eles estavam estupefatos olhando pra mim com os olhos mais arregalados que eu já vi.
Não deu tempo de fazer a conexão. Eu enfiei aquela merda na boca.
Era wasabi.
—–Pausa em luto do meu intestino ——-
Continuando, o tal wasabi que eu pensava que era maionese de alface, era a coisa mais sinistramente picante que eu coloquei na minha boca em toda minha vida.
Eu olhei para J* e a vi terminando de beber o último copo de coca-cola que estávamos dividindo.
-Que foi? – Indagou ela.
Eu não conseguia falar. As lágrimas começaram a escorrer pelo canto dos meus olhos e eu só não vomitei ali mesmo porque eu daria um gostinho para os quatro filhos de uma égua da mesa ao lado. Todas aquelas quatro hienas rindo de mim, esperando que eu gritasse, levantasse correndo pro banheiro ou desse um jato de vômito verde-limão na cara de J* no melhor estilo Exorcista.
Eu comecei a sentir minha glote fechar. Eu achei que ia morrer.
Então, eu reuni toda força universo, toda energia dos antepassados, do cosmos, a força de Gaia, mais a energia vital do meu corpo, mentalizei o kundalini e engoli aquela merda.
J* apenas olhava minha cara vermelha, e as lágrimas correndo pelo canto dos olhos.
-Tá quente? Tá ardendo? Tá com pimenta? – Ela perguntava assustada.
Eu só conseguia mexer a cabeça positivamente. Meti a mão no bolso peguei o dinheiro e joguei sobre a mesa. Levantei peguei J* pela mão e saí puxando ela pra fora do restaurante.
A noite terminou no Mc Donald´s, onde deveria ter começado.
Depois disso, eu fiquei anos sem comer comida japonesa.
FIM
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